Como aprimorar sua criatividade

Como Aprimorar a Sua Criatividade

 Para ler ouvindo: Blues Classics

"Saia da zona de conforto! Não tenha medo de se arriscar e errar… Inclua novas experiências à sua rotina… Simplesmente comece!" são algumas das dicas e técnicas que se encontram quando se busca desenvolver a criatividade. Bem genérico, não? Quando não são genéricas, muitas das técnicas são frameworks e "passo-a-passos" reducionistas de teóricas e teóricos do campo de estudo dos processos criativos. Daí, você vai tentar aplicá-los e então descobre que a criatividade não é bem assim como dizem!

Para contextualizar o porquê decidi compartilhar quais são meus métodos pessoais para o aprimoramento das suas habilidades criativas: eu estudo processos criativos há mais de 14 anos e, atuo especificamente com a facilitação da co-criação, ou seja, a criação colaborativa por meio de grupos transdisciplinares diversos desde 2010. Em 2020 iniciei uma especialização em Neurociências Aplicadas à Educação e Aprendizagem e, agora em 2021, criei um grupo de estudos independente, focado na intersecção das neurociências com a criatividade. Então, segue o fio:

Análise dos processos cognitivos


É importante que você dedique tempo para observar, refletir e realmente entrar em um estado de análise sobre processos cognitivos relacionados à criação de algo. Análise mesmo, como as que fazemos em terapia! Você pode focar nos seus processos individuais, por exemplo, se perguntando "como eu cheguei nessa percepção, ideia, conclusão ou solução? Qual foi a linha de conexões e associações que minha mente e emoções foram costurando até eu chegar naquele resultado criativo?"

Mas também pode se aplicar na análise dos processos coletivos em que esteve envolvido: "Qual é o caminho que percorremos até chegarmos à nossa ideia? O que cada um contribuiu para que o caminho se abrisse? Em que momentos divergimos, convergimos, nos perdemos e nos encontramos novamente?"

Você pode analisar, como se estivesse em terapia, seus processos cognitivos individuais, coletivos e até os processos de outras pessoas!

Lessak

E até mesmo buscar mapear os processos cognitivos de outras pessoas! Nesse caso, gosto muito de assistir vídeos no YouTube ou documentários de pessoas que abrem seus processos criativos (é mais interessante ainda que não seja especificamente da área na qual você tenha habilidade e domínio, pois o foco aqui não é aprender técnica, mas aprender processo).

Faço isso constantemente e, assim, crio um repertório de aprendizagem de como é a mecânica desse processo cognitivo.

Transposição de Atributos 

Sejam materiais, mídias, conceitos, contextos... transposição aqui é sobre manipular os elementos que compõem e constroem o próprio processo de criação. É ouvir uma música e transpor a "vibe" e o ambiente que ela te leva para criar um texto; é pegar esse texto e transformar ele em uma conversa, é pegar um elemento dessa conversa e explorar esse elemento em uma planilha; é pegar essa planilha e transformar ela em uma história em quadrinhos; é pegar essa HQ (com narrativa, personagens, arcos de desenvolvimento, ritmo, tropos e significados únicos) e se perguntar "e se ela se passasse em outro contexto, com outro protagonista?" e assim por diante...

Transpor atributos intangíveis e abstratos como se estivesse brincando com pecinhas de LEGO, por exemplo, me faz desenvolver uma habilidade lógica de cognição a partir dos elementos simbólicos. E, se você associar esse exercício à análise dos processos cognitivos, vai começar a perceber mais o quanto seus resultados criativos dependem das associações de seus repertórios.

Experimente transpor atributos intangíveis e abstratos como se estivesse brincando com pecinhas de LEGO.

Lessak

Postura da curiosidade científica

Não é apenas sobre ser curioso em relação às coisas. É direcionar intencionalmente um olhar exploratório sobre um determinado acontecimento, afirmação ou certeza. Aliás, é tratar toda e qualquer "certeza" como hipótese e, a partir deste momento, ampliar o entendimento de que existem outras hipóteses relacionadas. Identificar essas possibilidades é apenas o primeiro passo, porque a curiosidade científica segue a fundo na exploração sistemática de cada um dos possíveis caminhos. Quando você se deparar com uma afirmação, explore as possibilidades latentes que estão ali e que não foram consideradas.

Para explicar melhor, trago um exemplo real: em uma sessão online de co-criação, diversos designers e alguns dos nossos clientes estavam colaborando tanto na conversa falada quanto na tangibilização de post-its digitais na plataforma. O tópico da discussão era "como podemos conduzir melhores processos co-criativos em ambientes digitais e no contexto remoto que vivenciamos" e, em algum momento, alguém afirmou: "o difícil é que seja em workshops ou aulas, a interação que acontece paralela e organicamente no chat tende a ser o mais divertido; enquanto a interação proposta no vídeo, com conteúdo planejado para ser facilitado na expectativa de maior engajamento, é o que mais gera cansaço e, muitas vezes, é considerado o mais chato". Naquele momento exercitei minha curiosidade científica e identifiquei que ali existia uma dualidade e não poderia ser reduzida apenas entre 'sério versus divertido', mas pode ser entendida como uma conversa entre duas threads (ou mais até, se ampliarmos o pensamento para a categorização em #tópicos ou #canais). Neste caso, existe a thread em audiovisual e a thread em texto e essa é uma mudança de paradigma no modo como nos relacionamos em mídias digitais.

Explore as possibilidades latentes que estão ali e que não foram consideradas.

Lessak

Esse questionamento sobre determinada afirmação sempre vai te levar a perspectivas novas e, a partir delas, você pode criar novas hipóteses. "E se projetarmos um workshop ou uma aula abraçando essa dualidade de threads? E se não considerarmos uma alternância de momentos (primeiro no audiovisual e depois lendo o que está rolando no chat), mas um paralelismo? E se estabelecermos um repertório comum, uma nova forma de se comunicar digitalmente, que potencialize o aprendizado criativo?"

Fluxo iterativo da composição

Se você conversar com qualquer artista que trabalhe com composição (seja na música, dança, teatro, escrita ou elementos visuais) e pedir dicas de seu processo criativo, com certeza irá ouvir que antes de tudo deve observar muito atentamente, tentar reproduzir o que viu diversas vezes, e então, buscar criar uma forma sua de expressar o que deseja. Este é o fluxo da composição! Gosto de elencar nesses momentos: identificar, internalizar, improvisar e… iterar!

Recentemente eu participei de um workshop de lindy hop (dança de origem afro-americana, no Harlem, bairro negro da periferia de Nova Iorque, nos anos 20-30, ao som de Swing Jazz) e a proposta de ensino-aprendizagem que a facilitadora Cínthia Santos conduziu foi exatamente essa: primeiro, aprendemos os passos tradicionais da dança, observando as instrutoras, identificando e assimilando cada movimento; depois, treinamos várias vezes aqueles mesmos passos, em diferentes músicas e de diferentes formas, para internalizar aqueles movimentos de forma orientada; só então, seguiu-se um momento em que soltaram uma música e nos deixaram livres para utilizamos aqueles passos como uma linguagem nossa, sem direcionamento do que deveríamos fazer em qual sequencia ou momento… e esse foi o primeiro improviso.

Para uma composição iterativa, no entanto, o processo não pode acabar nesse estágio, pois é importante ressaltar a hora de iterar, ou seja, construir um novo ciclo de composição a partir do ciclo anterior. Foi então que as instrutoras propuseram que analisássemos um vídeo documentário retratando diferentes dançarinos afro-americanos daquela época. O exercício analítico foi observar criteriosamente cada dançarino, para identificar as diferenças que imprimiam nos mesmos passos que já havíamos assimilado. Identificamos para internalizar, portanto, a partir da prática treinamos cada um dos "estilos individuais" em diferentes músicas, ritmos e sequências de passos, nos apropriando daqueles estilos de forma a ampliar nosso repertório de movimentos.

Para chegarmos realmente no improviso, precisamos de novos elementos! Então, nos foi proposto um exercício de percepção e imaginação a partir de algumas músicas: uma mais sóbria e profunda, outra mais enérgica e ritmada, outra mais doce e fresca… Na sequência, aplicamos a técnica da transposição de atributos e, assim, cada um de nós deveria conseguir transpor para o nosso corpo e estilo de movimento alguma propriedade que identificamos e percebemos a partir daqueles ambientes musicais. Pronto! Agora já tínhamos elementos de diversidade em nosso repertório para cruzar e criar inúmeras associações de improviso.

Sei que o exemplo da dança aqui torna bem evidente o processo de criação e composição, mas é exatamente isso que ocorre em outros processos criativos não tão dependentes do físico e do tangível. Não esqueça também que não há improviso sem imprevisto.

Não há improviso sem imprevisto.

Lessak

Compor não se trata apenas de seguir uma sequência lógica de etapas, mas sobre construir essa prática e modelo mental independentemente da sequência. Por exemplo: se você estiver no meio de um processo de internalização de um artigo científico, treinando uma habilidade técnica de levantamento de dados, indexação, fichamento etc. e a sua mente te levar para o pensamento de que você esqueceu a roupa molhada na máquina de lavar… use este momento para o improviso. Transforme o que estiver fazendo a partir daquele elemento, ou seja, crie um registro mental de que quando esquece as roupas molhadas, você tem o retrabalho de lavá-las outra vez para tirar o cheiro ruim, então, associe que precisa criar um método para voltar às anotações do seu fichamento. O importante é manter fresco na memória os elementos de que precisa para não correr o risco de retrabalho.our text here ...

Construção de algo com outros 

A experiência de colaboração criativa aciona áreas do cérebro totalmente distintas da criação individual (principalmente no improviso), segundo diversos artigos e estudos publicados sobre Neurociências, Aprendizagem e Criatividade que tenho acompanhado.

Colaborar em um processo criativo é extremamente complexo, pois não é apenas juntar várias pessoas ao redor de um desafio, coletar insights de todos e construir uma visão coletiva de um resultado ou solução. Quando realmente acontece a co-criação, os integrantes vivenciam uma experiência que engloba todos esses conceitos e técnicas que compartilhei aqui, de forma constante e integrada. Os processos cognitivos individuais se alimentam dos inputs imprevistos que vêm dos processos cognitivos dos outros indivíduos presentes. Se permitir vivenciar isso em contextos de resolução de problemas diários, de negócios ou de inovação em ambientes complexos é uma experiência única e o resultado criativo é muito valioso.

Se envolva em processos de criação com pessoas que te tragam uma perspectiva de repertório diverso.

Lessak

Falando sobre improviso: se você tem um pouco de técnica musical, recomendo participar de sessões Jam de improviso e você vai ver o resultado na sua criatividade aplicada à outros contextos. Mas se você é como eu, que não tem essa habilidade desenvolvida, pode assistir vídeos estilo "É Tudo Improviso" e fazer suas próprias sessões com amigos. Além disso, sempre é possível participar de sessões co-criativas de design em eventos como Global Service Jam ou até com pessoas no seu trabalho ou escola. O que importa é se soltar no processo da criação em meio a interação com outros, e de preferência, outros que você nem conheça, outros que te tragam uma perspectiva de repertório diverso.

Se você chegou até aqui e ainda não saiu testando tudo que eu compartilhei, você está fazendo isso errado! Hehe Brincadeira... mas uma coisa é verdade: você não precisa de nenhuma conclusão minha a respeito. Entretanto, eu adoraria saber se você já pratica algumas das técnicas que apresentei e como é a experiência para você. Se ainda não pratica, quero saber quais são suas maiores barreiras para exercitar e aprimorar suas habilidades criativas. Então, "simplesmente comece!" :)

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Lessak é especialista em Human-Centered Design e co-fundador da Kyvo, onde atua como Designer Estratégico no Labs, frente de estruturação de futuros negócios, parcerias e programas da companhia. Hoje, aprofunda seus conhecimentos em Neurociências da Aprendizagem, com foco nos processos cognitivos da criatividade. Além de mediar um grupo de estudos independente sobre Neurociências & Criatividade, também está envolvido ativamente na liderança de iniciativas locais de fomento ao ecossistema de inovação (Service Design Network, World Creativity Day e Global Service Jam).


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Domingo, 09 Mai 2021